Expedição Franklin: Ciência desvenda mistério após 170 anos
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Expedição Franklin: Ciência desvenda mistério após 170 anos

A expedição perdida de John Franklin no Ártico, em 1845, intrigou o mundo por séculos. A ciência moderna revelou agora a causa da tragédia. Em maio de 1845,.

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Em maio de 1845, o capitão John Franklin e a sua expedição partiram do porto de Greenhithe, no Reino Unido, com um objetivo ambicioso: encontrar a lendária Passagem do Noroeste, a rota marítima que uniria o Atlântico ao Pacífico pelo norte do Canadá. Contudo, 129 homens desapareceram sem deixar rasto, transformando-se num dos maiores mistérios da exploração naval e científica durante 170 anos. Agora, a ciência moderna, com o apoio de técnicas avançadas, parece ter finalmente desvendado o enigma.

Durante décadas, a ausência de respostas alimentou inúmeras teorias e tentativas de busca, muitas delas infrutíferas. A saga da expedição de Franklin, de facto, começou com um rol de recusas de outros exploradores, levando à nomeação de Franklin, já com quase 60 anos, para liderar os navios HMS Erebus e HMS Terror. Após uma paragem na Gronelândia, onde a expedição iniciou a sua viagem solitária, foi em agosto de 1845 que os baleeiros Prince of Wales e Enterprise os viram pela última vez na baía de Baffin, antes de se aventurarem no Estreito de Lancaster.

Os Primeiros Suspeitos e a Busca Incansável

Nos anos seguintes ao desaparecimento, a pressão pública e da própria Lady Jane Franklin levou o Almirantado Britânico a enviar várias expedições de busca. Foi em 1859 que foram encontrados os primeiros vestígios cruciais: uma mensagem datada de 1847 que indicava “tudo bem”, assinada pelo próprio Franklin, e um segundo aditamento, de 1848, que revelava que os navios haviam ficado presos no gelo. Franklin e 23 tripulantes já tinham morrido, e os sobreviventes tinham abandonado as embarcações, buscando refúgio para sul. No entanto, os navios continuaram perdidos, e a causa exata das mortes permaneceu um mistério.

Na década de 1980, um projeto da Universidade de Alberta tentou rastrear a expedição, exumando corpos e encontrando indícios de canibalismo. As primeiras análises sugeriram envenenamento por chumbo, possivelmente devido às latas de comida mal seladas com solda à base de chumbo, encomendadas à pressa. Contudo, testes posteriores realizados em 2013 mostraram que os níveis de chumbo nos restos mortais não eram excecionalmente altos para a população marinheira da época, voltando a deixar a questão em aberto. Os navios, entretanto, seriam finalmente encontrados entre 2008 e 2014 no golfo da Rainha Maud.

Da Ponta de um Dedo à Verdade Científica

O verdadeiro avanço surgiu com a equipa de Jennie Christensen, que utilizou uma abordagem inovadora: reconstruir a dieta e o estado de saúde de um membro da tripulação através da análise de uma simples unha. Este método permitiu determinar as flutuações dos níveis de metais pesados nos últimos dias da tripulação de Franklin. Ao que parece, o problema não era o chumbo, mas sim uma deficiência de zinco.

O Impacto da Deficiência de Zinco no Ártico

A carência de zinco no organismo pode ter consequências devastadoras, especialmente num ambiente tão inóspito como o Ártico. Este défice provoca instabilidade emocional, problemas gastrointestinais e, crucialmente, uma depressão do sistema imunitário. Ou seja, não só aumentava a vulnerabilidade a doenças como a tuberculose e a pneumonia – causas de morte já identificadas –, como também poderia ter favorecido problemas internos e disfunções dentro do grupo. Homens experientes, com víveres suficientes e conhecimento do terreno, sucumbiram não apenas ao frio ou à fome, mas a uma condição nutricional que os debilitou física e mentalmente.

Este fascinante desfecho demonstra a capacidade da ciência moderna de desvendar mistérios com séculos de idade, utilizando tecnologias e metodologias que permitem extrair respostas cruciais de vestígios tão diminutos como uma unha. A expedição de Franklin deixou de ser apenas uma lenda trágica, para se tornar um testemunho do poder da investigação científica em reescrever a história.