China liga Jupiter I: A turbina de hidrogénio que combate o desperdício
Ciência

China liga Jupiter I: A turbina de hidrogénio que combate o desperdício

A China ativou Jupiter I, a primeira turbina de 30 MW a hidrogénio puro do mundo. Esta inovação é crucial para armazenar energia renovável e combater o despe.

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A China, país que, de facto, continua a ser um grande consumidor de combustíveis fósseis, tem vindo a solidificar a sua posição como um dos principais impulsionadores das energias renováveis e das megaestruturas tecnológicas associadas. Neste contexto, acaba de acender o “Jupiter I”, a primeira turbina do mundo de classe 30 MW a operar exclusivamente com hidrogénio puro. Esta inovação promete ser uma solução robusta para um dos maiores desafios das energias renováveis: o aproveitamento do excedente de energia.

Com a ativação do Jupiter I, a China não só reforça a sua liderança tecnológica, mas também apresenta um modelo que pode revolucionar a forma como a energia verde é armazenada e distribuída globalmente. Este projeto-piloto é um passo significativo na luta contra o desperdício energético, um problema que afeta a eficiência das fontes de energia limpa em todo o mundo.

Jupiter I: A Inovação do Hidrogénio Puro

Ao contrário de outras turbinas que operam em modo piloto a escalas menores (5 ou 10 MW) e que são, na verdade, turbinas de gás natural reconvertidas, o Jupiter I foi concebido de raiz para funcionar com hidrogénio puro. Trata-se da primeira unidade de 30 MW desta natureza a entrar em funcionamento, com a capacidade de gerar até 48 MWh em modo de ciclo combinado. Para colocar isto em perspetiva, os seus criadores estimam que esta capacidade é suficiente para satisfazer a procura diária de mais de 5.500 lares.

A turbina pode consumir mais de 30.000 m³ de hidrogénio por hora, o que anualmente equivale a cerca de 500 milhões de kWh. A grande vantagem é que esta eletricidade é armazenada sob a forma de hidrogénio, garantindo uma fonte de energia limpa e flexível. Todos os seus sistemas, desde a câmara de combustão à injeção e controlo da chama, foram otimizados especificamente para este combustível, marcando um avanço considerável na tecnologia de turbinas.

O Papel Crucial do Hidrogénio Verde

Embora o hidrogénio ainda não tenha tido o impacto esperado em setores como o automóvel de passageiros, o seu potencial para a descarbonização é inegável, especialmente quando se fala de hidrogénio verde – produzido a partir de energias renováveis. O Jupiter I utiliza precisamente este tipo de hidrogénio, posicionando-se como um pilar fundamental na transição energética.

As turbinas classificam-se pelo tipo de combustível e percentagem de hidrogénio na mistura. As unidades de hidrogénio puro, como o Jupiter I, operam integralmente com este combustível, distinguindo-se das que utilizam misturas de 20% ou 50%. Este foco no hidrogénio puro permite uma queima mais eficiente e emissões zero, contribuindo para uma rede energética mais limpa e sustentável.

Combater o Desperdício Energético e Otimizar a Rede

A turbina Jupiter I não é uma entidade isolada. Está estrategicamente localizada em Ordos, na Mongólia Interior, e integra um sistema maior: um parque eólico de 500 MW. Esta localização é crucial, pois as energias renováveis, apesar do seu potencial, geram frequentemente excedentes que não são devidamente armazenados ou consumidos, resultando em desperdício.

É aqui que o Jupiter I entra em ação. O sistema funciona num ciclo fechado: eletricidade – hidrogénio – eletricidade. Quando os aerogeradores produzem mais energia do que a rede consegue consumir, e não há capacidade de armazenamento em baterias, a turbina usa esse excesso para produzir hidrogénio verde. Este hidrogénio é armazenado em doze tanques de 1.875 m³ cada. Em momentos de maior procura ou quando as fontes renováveis não conseguem satisfazê-la, o hidrogénio verde armazenado é convertido novamente em eletricidade, de forma imediata e sem emissões.

Um Futuro Sustentável nas Mega-Plantas Chinesas

A integração de turbinas de hidrogénio puro diretamente em parques de energias renováveis resolve não só o problema do desperdício de eletricidade, mas também os desafios complexos associados ao transporte de hidrogénio. A China tem vindo a apostar fortemente na construção de mega-plantas energéticas, muitas vezes em regiões desérticas, onde os recursos eólicos e solares são abundantes.

O Jupiter I, enquanto projeto-piloto, tem o potencial de impulsionar ainda mais esses projetos de energia em grande escala, superiores a 1 GW. Se cumprir as promessas de eficiência e fiabilidade, como avisado pela Administração Nacional de Energia da China em junho, não será certamente o último exemplar desta tecnologia, abrindo caminho para uma nova era na gestão e produção de energia limpa.