Altruísmo Animal: Um Debate Entre Egoísmo e Compaixão na Natureza
Serão os animais capazes de altruísmo genuíno ou cada ato de ajuda esconde um interesse próprio? Uma questão filosófica e biológica complexa que continua a d.
A imagem de um pato a proteger um cão bebé sob as suas asas ou de um grupo de baleias-corcundas a salvar uma foca de orcas famintas rapidamente se tornam virais, alimentando um dos debates mais antigos e intrigantes da filosofia e da biologia: será que os animais são capazes de altruísmo genuíno? Em contraste com a visão, por vezes cínica, da natureza humana, estas narrativas parecem oferecer uma perspetiva de bondade desinteressada no reino animal. Mas, ao que parece, a ciência não concorda de forma unânime com esta interpretação.
A Definição de Altruísmo na Biologia
Para a biologia e a etologia, o altruísmo define-se como uma ação que beneficia um terceiro em detrimento do próprio indivíduo que a pratica. Ou seja, atos com consequências positivas para outro, sem que se derive um interesse próprio direto. Contudo, dissecar esta questão é um desafio, uma vez que muitos comportamentos aparentemente altruístas escondem, na verdade, motivações profundamente egoístas ou ligadas à sobrevivência da espécie.
Um caso célebre é o dos corvos observados pelo biólogo Bernd Heinrich, nos anos 80. Um grupo de corvos jovens que tinha encontrado o cadáver de um veado começou a chamar ruidosamente a atenção de outros da sua espécie. Inicialmente, parecia um convite para partilhar o banquete. No entanto, a explicação mais plausível é que, por estarem em território de um corvo adulto mais poderoso, os jovens estavam a reunir um grupo maior para evitar represálias e garantir uma porção da carne. Uma estratégia inteligente de defesa coletiva, não de partilha desinteressada.
Outros exemplos enquadram-se na 'kin selection' (seleção de parentesco) ou na necessidade de perpetuar a espécie. Morcegos fêmea que partilham alimento com machos em épocas de escassez, ou colónias de formigas que se sacrificam, são comportamentos que, embora beneficiem outros, visam, em última instância, a sobrevivência e propagação dos próprios genes ou do grupo.
Quando o Comportamento Desafia a Lógica Evolutiva
Ainda assim, existem casos que escapam a estas explicações mais pragmáticas, forçando os cientistas a questionar os limites do egoísmo animal. Há registos de grupos de orcas que adotaram golfinhos com malformações genéticas por várias semanas, um comportamento inesperado dada a sua natureza não particularmente social com outras espécies. Um comportamento, de facto, singular.
Mas talvez o exemplo mais fascinante seja o das baleias-corcundas. Em 2009, investigadores testemunharam um ato notável na Antártida: duas baleias-corcundas intervieram ativamente para proteger uma foca que estava a ser perseguida por orcas, permitindo-lhe alcançar terra firme. As corcundas alimentam-se exclusivamente de peixe e crustáceos, não tendo qualquer benefício direto ou mecanismo biológico óbvio que explicasse tal intervenção. Sob qualquer perspetiva, decidiram ajudar a foca, colocando-se a si próprias em risco.
A Complexidade da Empatia e a Conclusão Aberta
Este não foi um incidente isolado. Estudos compilaram mais de 115 encontros entre baleias-corcundas e orcas nos últimos 62 anos, com as corcundas a intervir no resgate de outras espécies de baleias e focas. Poderá ser um mecanismo de defesa automático (as orcas também atacam as crias das corcundas), ou uma resposta a chamamentos de outras espécies em perigo. Contudo, a possibilidade de ser uma ajuda pura e simplesmente desinteressada não pode ser descartada. Sabe-se que cetáceos como os golfinhos e as baleias são capazes de pensamentos sofisticados, de resolver problemas e de formas complexas de comunicação, sugerindo uma inteligência que, em circunstâncias extraordinárias, poderia levar a atos genuinamente altruístas.
A ciência, de facto, ainda não alcançou um consenso sobre esta questão. A complexidade reside na dificuldade de testar as emoções e intenções dos animais. Não sabemos o que eles pensam, e os nossos próprios conceitos de moralidade e altruísmo derivam de processos cognitivos abstratos que não são diretamente extrapoláveis. No entanto, estudos recentes sugerem que certas características genéticas e estruturas cerebrais em alguns animais podem permitir identificar o sofrimento ou risco alheio, impulsionando comportamentos de cuidado e proteção, à margem de considerações morais humanas. É possível que o pato estivesse a cuidar do cachorro por puro altruísmo? Ou as baleias a proteger a foca por compaixão? Não temos a certeza. Mas a possibilidade, essa, existe.
