Combustíveis Renováveis: Uma Ponte para o Futuro Automóvel
Mobilidade

Combustíveis Renováveis: Uma Ponte para o Futuro Automóvel

Descubra como os combustíveis renováveis, produzidos de resíduos, oferecem alternativa sustentável para milhões de carros a combustão na Europa. Nexora News.

5 min de leitura

A transição energética no setor automóvel, embora inevitável, tem-se revelado um processo lento e desafiador. Milhões de veículos a diesel e gasolina, muitos deles com mais de uma década de existência, continuam a circular pelas estradas europeias, coexistindo com a crescente, mas ainda limitada, infraestrutura de veículos elétricos. Neste cenário complexo, emerge uma solução intermédia promissora: os combustíveis renováveis. Sem uma gota de petróleo na sua composição, estes combustíveis representam um dos últimos bastiões para a longevidade dos motores de combustão interna, oferecendo uma ponte crucial para um futuro mais sustentável.

Esta tecnologia baseia-se na transformação de resíduos orgânicos – desde óleos de cozinha usados e gorduras animais a restos florestais e de colheitas – em combustíveis com propriedades análogas aos derivados do petróleo. A sua principal vantagem reside no ciclo de carbono fechado: o CO₂ emitido durante a combustão é o mesmo que as plantas absorveram previamente da atmosfera, distinguindo-se assim dos combustíveis fósseis que libertam carbono armazenado subterraneamente por milhões de anos. Contudo, a sua implementação em larga escala enfrenta obstáculos significativos, desde a regulamentação até ao custo, que a PRISMATEK analisa em detalhe.

O Que São os Combustíveis Renováveis e o Seu Impacto Ambiental

Os combustíveis renováveis, muitas vezes designados por biocombustíveis avançados, são produzidos através de um processo de hidrogeração catalítica que converte uma vasta gama de resíduos orgânicos em gasolina ou diesel. Esta abordagem inovadora garante que estes combustíveis não competem com a produção alimentar e aproveitam subprodutos que de outra forma seriam descartados. A Repsol, por exemplo, afirma que o seu diesel Nexa pode reduzir as emissões líquidas de CO₂ em até 90% face ao diesel convencional, enquanto a gasolina Efitec Nexa alcança uma redução superior a 70%. Esta significativa diminuição de CO₂ é fundamental para mitigar o impacto climático do parque automóvel existente.

No entanto, a questão dos óxidos de azoto (NOₓ) é mais matizada. Enquanto o CO₂ é mitigado pelo ciclo fechado, os NOₓ continuam a ser gerados durante a combustão, uma vez que provêm do azoto atmosférico exposto a altas temperaturas. Os estudos sobre a redução de NOₓ com biocombustíveis apresentam resultados contraditórios; alguns indicam ligeiros aumentos, enquanto outros, como o Laboratório Nacional de Energias Renováveis dos Estados Unidos, sugerem que o diesel renovável pode reduzir tanto o CO₂ quanto o NOₓ. O que é consistentemente observado é uma redução notável de partículas e fuligem, contribuindo para uma melhor qualidade do ar local.

Vantagens Práticas e Desafios de Implementação

Uma das maiores vantagens práticas dos combustíveis renováveis é a sua compatibilidade total com os veículos existentes. Não são necessárias modificações técnicas nos motores, depósitos ou infraestruturas de abastecimento. Qualquer automóvel a diesel ou gasolina pode usar estes combustíveis de imediato. Os produtos da Repsol, por exemplo, cumprem as normas europeias EN 15940 (para combustíveis parafínicos) e EN-228, garantindo a sua qualidade e segurança. A empresa até aponta benefícios adicionais, como uma melhor combustão, redução do ruído do motor e um efeito de limpeza no sistema de injeção devido ao seu alto índice de cetano.

A disponibilidade e o custo são, no entanto, os principais entraves. Embora a Repsol lidere a implementação em Espanha com mais de mil estações a oferecer diesel Nexa e a meta de 30 com gasolina Efitec Nexa até ao final do ano, a cobertura ainda é limitada fora dos grandes centros urbanos. O preço é outro fator crítico: o diesel Nexa custa cerca de 10 cêntimos mais por litro do que o diesel convencional, posicionando-o na gama dos combustíveis premium. Esta diferença de custo e a escassez de pontos de abastecimento dificultam a sua adoção massiva por parte dos consumidores, apesar do uso crescente em competições como o Rally Dakar e por empresas de transporte como a Scania, Alsa ou Grupo Sesé.

O Obstáculo Regulatório e o Futuro na Europa

Atualmente, a regulamentação europeia para as emissões de CO₂ dos veículos novos foca-se nas emissões diretamente do tubo de escape (tailpipe). Esta abordagem penaliza os veículos que utilizam combustíveis renováveis, atribuindo-lhes um valor de emissões não nulo, mesmo que sejam neutros em carbono quando considerado o seu ciclo de vida completo – desde a produção até ao consumo. Em contraste, um carro elétrico é considerado de emissão zero por esta métrica, criando um desequilíbrio na perceção e no incentivo.

A indústria, incluindo a Repsol, tem apelado a uma mudança na metodologia regulatória para que se considere o ciclo de vida completo do combustível, bem como a uma fiscalidade adaptada e a objetivos de longo prazo que proporcionem estabilidade aos investimentos. Com um parque automóvel em muitos países europeus, como o espanhol, com uma idade média de 14,5 anos e milhões de veículos com mais de duas décadas, os combustíveis renováveis representam uma alternativa pragmática e imediata. Podem permitir que milhões de condutores contribuam para a redução das emissões sem a necessidade de uma substituição onerosa e muitas vezes inviável dos seus veículos, servindo como uma etapa fundamental na transição energética até que a infraestrutura elétrica esteja plenamente desenvolvida e acessível a todos.

Os combustíveis renováveis apresentam-se como uma solução vital e pragmaticamente necessária para o desafio da descarbonização do transporte. Oferecendo compatibilidade imediata com a frota automóvel existente e um perfil de emissões significativamente melhorado, representam uma ponte essencial na jornada para a neutralidade carbónica. No entanto, o seu potencial total só será alcançado com uma revisão da política regulatória e incentivos fiscais que reflitam os seus benefícios ambientais de ciclo de vida completo. É um caminho com desafios, mas com a promessa de um futuro mais verde para milhões de veículos em circulação.