Combustíveis Renováveis: A Solução para Carros a Combustão?
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Combustíveis Renováveis: A Solução para Carros a Combustão?

Combustíveis renováveis, sem petróleo, de resíduos orgânicos, oferecem alternativa neutra em CO2 para carros a combustão na Europa. Custos e regulação são de.

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Combustíveis Renováveis: Uma Alternativa Viável para o Futuro dos Motores a Combustão na Europa?

A eletrificação do parque automóvel europeu é um processo incontornável, mas a sua implementação tem sido mais lenta do que o esperado. Seja por limitações de infraestrutura, regulamentação rigorosa, perceção social ou outros fatores, a transição energética enfrenta desafios significativos. Enquanto isso, milhões de veículos a gasolina e gasóleo continuam a circular pelas estradas europeias, muitos deles com mais de uma década de existência, contribuindo para emissões de carbono e poluição.

Neste cenário de transição gradual e complexa, surge uma solução promissora para tornar o caminho mais sustentável: os combustíveis renováveis. Estes produtos inovadores, que não contêm uma única gota de petróleo, apresentam-se como uma alternativa para os veículos de combustão interna, com o potencial de reduzir drasticamente o seu impacto ambiental. Mas o que são exatamente estes combustíveis e qual o seu verdadeiro papel no futuro da mobilidade na Europa?

O que são os Combustíveis Renováveis e Como Funcionam?

Os combustíveis renováveis, frequentemente designados como e-fuels ou biocombustíveis avançados, são produzidos a partir de resíduos orgânicos, como óleos de cozinha usados, gorduras animais, desperdícios florestais ou restos de colheitas. Através de um processo de hidrogenação catalítica, estes resíduos são transformados em combustíveis com propriedades químicas e físicas semelhantes às dos derivados do petróleo. A grande diferença reside na sua pegada de carbono: o CO₂ que libertam na combustão é o mesmo que as plantas de origem absorveram previamente da atmosfera, estabelecendo um ciclo de carbono fechado. Isto contrasta radicalmente com os combustíveis fósseis, que libertam carbono armazenado no subsolo há milhões de anos.

Empresas como a Repsol têm liderado a investigação e o desenvolvimento nestes domínios. A Repsol afirma que o seu gasóleo Nexa pode reduzir as emissões líquidas de CO₂ em até 90% face ao gasóleo convencional, enquanto a sua gasolina Efitec Nexa as diminui em mais de 70%. Embora o motor continue a emitir CO₂, este carbono já estava presente na atmosfera antes de ser convertido em combustível. Contudo, é importante notar que a combustão ainda gera óxidos de azoto (NOₓ), provenientes do azoto do ar exposto a altas temperaturas. Os estudos sobre a redução de NOₓ com biocombustíveis ainda apresentam resultados contraditórios, com alguns a indicar ligeiros aumentos e outros, como o Laboratório Nacional de Energias Renováveis dos EUA, a mostrarem reduções. No entanto, a redução de partículas e fuligem é uma vantagem consistentemente observada.

Compatibilidade, Disponibilidade e Desafios Económicos

Uma das maiores vantagens práticas dos combustíveis renováveis é a sua compatibilidade total com os veículos atuais. Qualquer carro a gasóleo ou gasolina pode utilizar estes combustíveis sem necessidade de modificações técnicas. Não é preciso alterar o motor, adaptar o depósito ou instalar novos dispensadores nas estações de serviço. Por exemplo, o gasóleo Nexa da Repsol cumpre a norma europeia EN 15940 para combustíveis parafínicos, e a gasolina Efitec Nexa obedece à EN-228. A empresa garante ainda que, devido ao seu elevado índice de cetano, estes combustíveis melhoram a combustão, reduzem o ruído do motor e possuem um efeito de limpeza no sistema de injeção.

Em termos de disponibilidade, o cenário ainda é limitado, mas em expansão. Em Espanha, a Repsol tem vindo a alargar a sua rede, com mais de 1.000 estações a oferecer gasóleo Nexa e com o objetivo de chegar a 30 estações com gasolina Efitec Nexa até ao final do ano. Outras empresas, como a BP, também oferecem HVO (óleo vegetal hidrotratado) em locais estratégicos. Para localizá-los, os motores de busca das respetivas companhias são a ferramenta mais útil. No entanto, o custo permanece um dos principais obstáculos. O gasóleo Nexa custa aproximadamente 10 cêntimos mais por litro do que o gasóleo convencional, alinhando-se com os combustíveis premium, uma tendência que se repete para a gasolina renovável. A produção industrial está a avançar, com a Repsol a produzir gasóleo renovável em Cartagena e gasolina renovável em Tarragona, e uma nova instalação prevista para Puertollano em 2026, com uma capacidade superior a 200.000 toneladas anuais. Além do uso por particulares, estes combustíveis já foram testados em competições como o Rally Dakar e são utilizados em voos comerciais e por grandes empresas de transporte como Scania, Alsa ou Grupo Sesé.

O Debate Regulatório e o Papel na Transição Energética

Apesar das suas promessas, os combustíveis renováveis enfrentam um desafio regulatório significativo na Europa. A atual legislação europeia sobre emissões de CO₂ para veículos novos mede as emissões diretamente do tubo de escape. Com esta abordagem, um carro elétrico é considerado de emissão zero, enquanto um veículo que utilize combustível renovável não o é, mesmo que o ciclo de vida completo do combustível seja neutro em carbono (da produção ao consumo). Esta metodologia impede que os veículos a combustão que usam e-fuels sejam plenamente reconhecidos pelos seus benefícios ambientais.

Perante esta situação, a indústria e os defensores destes combustíveis apelam a uma alteração na metodologia regulatória, para que se considere o ciclo de vida completo do combustível. A Repsol e outros atores do setor defendem a necessidade de uma fiscalidade adaptada e de objetivos a longo prazo que proporcionem estabilidade aos avultados investimentos necessários. Com um parque automóvel envelhecido, como o espanhol, onde a idade média é de 14,5 anos e milhões de veículos têm mais de duas décadas, os combustíveis renováveis podem representar uma alternativa intermédia crucial nesta fase de transição energética, garantindo que milhões de condutores não sejam deixados para trás enquanto a eletrificação continua o seu curso.

Conclusão

Os combustíveis renováveis surgem como uma ponte vital na complexa transição energética da Europa. Oferecendo uma solução neutra em carbono para a frota existente de veículos a combustão, sem exigir alterações técnicas dispendiosas, estes e-fuels podem desempenhar um papel crucial na descarbonização a curto e médio prazo. No entanto, para que o seu potencial seja plenamente concretizado, é imperativo que o quadro regulatório europeu se adapte para reconhecer os seus benefícios de ciclo de vida completo. Com o apoio certo em termos de fiscalidade e metas de longo prazo, os combustíveis renováveis poderão solidificar a sua posição como um pilar fundamental na jornada rumo a uma mobilidade mais sustentável no continente europeu.