Tribos Urbanas: Como a Identidade Jovem Evoluiu até Hoje
Das ruas aos ecrãs, as tribos urbanas continuam a moldar a identidade jovem. Exploramos a sua evolução, da contracultura dos anos 50 à era digital e às novas.
Quem nunca passou por uma fase em que a sua identidade parecia intrinsecamente ligada a um certo grupo, a uma estética particular ou a uma banda sonora específica? Muitos de nós, de facto, já coqueteámos com alguma “tribo urbana”, mesmo que por um breve período. No entanto, em pleno 2025, e ao contrário do que alguns possam pensar, estas comunidades continuam bem vivas, ainda que transformadas e adaptadas à era digital que vivemos.
Num mundo onde o físico e o virtual se entrelaçam cada vez mais, as tribos urbanas servem como linguagens identitárias, espaços de pertença e territórios simbólicos onde se experimenta o “quem somos”. Desde os pioneiros dos anos 50 até aos influenciadores de TikTok do presente, este artigo traça um mapa completo da forma como nos vestimos, o que ouvimos e o que procuramos na construção da nossa identidade coletiva.
A Evolução das “Tribos”: Dos Anos 50 à Era Digital
Sociologicamente, as tribos urbanas são grupos de jovens (ou nem tanto) que partilham estética, gostos culturais, rituais e, frequentemente, uma visão do mundo. Segundo o antropólogo Carles Feixa, funcionam como “micro-sociedades juvenis” que permitem a diferenciação do mundo adulto e a construção de identidades próprias. Os anos 50, em particular, marcaram o nascimento da adolescência como uma identidade distinta, dando origem às primeiras tribos urbanas como as Beatniks, Teddy Boys ou Greasers. Estes grupos definiram-se através da música, do cinema e de uma moda que rejeitava as normas estabelecidas.
Contudo, a visão mais recente, através das teorias pós-subculturais de Andy Bennett, sugere que as tribos atuais são menos rígidas e permanentes, assemelhando-se mais a “neo-tribos” flexíveis e líquidas. Entra-se e sai com maior facilidade, com base tanto em afinidades emocionais como em consumos culturais e estilos de vida. A digitalização, aliás, acelerou esta fluidez, permitindo que a pertença se estabeleça mais no virtual do que em territórios físicos exclusivos.
Marcadores de Identidade: Estética, Música e Valores
Embora se transformem, as tribos urbanas mantêm elementos comuns que as tornam reconhecíveis. A estética é um código visual de pertença, manifestada em roupas, penteados, maquilhagem e acessórios. A música, por sua vez, funciona como um eixo emocional, com cada tribo a ter a sua banda sonora identificável — seja o punk, o K-pop ou o techno. Para além disso, muitas partilham ideologias ou valores, que podem ir de posições políticas explícitas (como os punks com o seu anarquismo) a meras preferências estéticas (como os hipsters ou cottagecore).
Os rituais coletivos são outro pilar, com os membros a identificarem-se em concertos, raves, encontros em praças ou fóruns online. E, claro, existe um linguagem comum, com gírias próprias, memes partilhados e referentes culturais internos, que solidificam o sentido de comunidade.
As Tribos do Século XXI: Nativas Digitais e Híbridas
O século XXI, impulsionado pela internet e pelas redes sociais, trouxe uma mudança radical. As tribos urbanas já não necessitam de um território físico e passaram a existir, acima de tudo, no digital. Entrámos na era das “identidades híbridas”, onde se pode flutuar entre várias comunidades sem uma lealdade exclusiva a uma só. Os Gamers, por exemplo, construíram uma subcultura global em torno dos videojogos e do e-sport, com as suas próprias estéticas e rituais online. As E-Girls/E-Boys, nascidas no TikTok, representam uma estética híbrida que mistura anime, gaming, moda alternativa e uma performatividade digital marcante.
Também os K-Poppers formam uma das subculturas digitais mais organizadas do mundo, com uma devoção fervorosa aos seus ídolos e uma forte comunidade global ativa nas redes sociais. Mais recentemente, vimos surgir tendências estéticas como as Coquette/Soft Girl, que, embora não necessariamente ideológicas, refletem uma hiperfeminidade performativa e um romantismo idealizado que se manifestam e viralizam sobretudo através de plataformas como o TikTok.
A Tribo Que Habita em Nós
É provável que já não usemos um corpete gótico ou uma pulseira de picos, mas alguma parte de nós continua a pertencer a uma tribo. Como a sociologia demonstra, as tribos urbanas são mais do que modas passageiras: são linguagens de pertença e ferramentas essenciais para expressarmos quem somos num mundo em constante aceleração. Numa sociedade hiperconectada e fragmentada, a necessidade de nos sentirmos parte de algo persiste. É por isso que, num recanto da nossa memória estética, ainda guardamos, porventura, uma camisa de xadrez grunge, um laço “coquette” ou um par de Vans gastas. Afinal, não paramos de nos reinventar, e as tribos urbanas — passadas e presentes — são a prova irrefutável disso mesmo.
