Ucrânia propõe trégua de Natal, mas Rússia recusa parar combates
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Ucrânia propõe trégua de Natal, mas Rússia recusa parar combates

Kiev sugere pausa nos combates por Natal, evocando a 1ª Guerra Mundial, mas Moscovo rejeita. A Rússia considera qualquer trégua uma armadilha, mantendo a gue.

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A Ucrânia sugeriu novamente uma trégua nos combates com a Rússia para o período natalício, um gesto que evoca a histórica pausa da Primeira Guerra Mundial. No entanto, a resposta de Moscovo foi imediata e categórica, recusando qualquer “cessar-fogo” temporário. Este episódio realça a profunda clivagem entre os dois países, onde o simbolismo da paz natalícia choca com a dura realidade dos objetivos militares e políticos no terreno.

A Resonância de 1914: Uma Trégua Inatingível?

A referência histórica inevitável para estas propostas é a trégua espontânea de dezembro de 1914. Nos primeiros meses da Primeira Guerra Mundial, soldados britânicos e alemães abandonaram as trincheiras na Frente Ocidental, trocaram bens, cantaram cânticos de Natal e até jogaram futebol. Foi um momento de humanidade em meio ao horror crescente, não ordenado por comandos, mas emergindo do esgotamento humano. Esta trégua única nunca se repetiu, de facto, foi vista pelos altos comandos como perigosa e incompatível com a lógica da guerra moderna total. Desde então, o Natal tem sido mais um símbolo retórico de paz do que uma interrupção real dos combates.

Kiev Propõe, Moscovo Recusa Categoricamente

Neste contexto histórico carregado de simbolismo, o Presidente ucraniano Volodymyr Zelensky sugeriu um alto cessar-fogo durante o Natal, focando-se, em particular, na interrupção dos ataques contra infraestruturas energéticas, cruciais para a população civil no inverno. Embora Kiev prepare novas propostas de paz com parceiros europeus e os EUA, Zelensky mantém-se prudente, admitindo que a Rússia pode optar por continuar a guerra, levando a mais sanções e armamento.

A reação do Kremlin foi fulminante. Dmitri Peskov, porta-voz de Moscovo, descartou qualquer trégua temporária, incluindo a de Natal. O argumento é consistente: uma pausa serviria apenas para a Ucrânia se reagrupar, rearmar e, consequentemente, prolongar o conflito. Na retórica oficial russa, “trégua” é uma armadilha, e “paz” implica que a Rússia atinja todos os seus objetivos estratégicos. Moscovo não está disposto a substituir uma negociação integral pelos seus próprios termos por soluções “momentâneas e não viáveis”.

As Linhas Vermelhas do Conflito Implacável

Por detrás deste embate de declarações reside o cerne intransigente do conflito. A Rússia exige a renúncia ucraniana a vastas zonas do seu território, limites permanentes às suas forças armadas e o descarte de qualquer adesão futura à NATO. A Ucrânia, por sua vez, recusa entregar o Donbas e recorda a traição de 1994, quando abdicou do seu arsenal nuclear por garantias de segurança que falharam. As sondagens indicam que a maioria da sociedade ucraniana opõe-se a ceder território e está determinada a lutar, limitando a margem política de Zelensky.

Um Natal sem Milagres na Guerra Moderna

A proposta de uma pausa natalícia evidencia a abismal diferença entre a guerra na memória histórica e o conflito atual. Em 1914, uma trégua improvisada foi possível pela humanidade partilhada entre os soldados. Em 2023, a guerra na Ucrânia é um conflito de objetivos estratégicos, linhas vermelhas existenciais e um cálculo frio de poder. Cada dia de pausa é medido em ganhos operacionais e logísticos. A resposta russa, seca e desconfiada, confirma que, nesta guerra, o Natal não tem poder para suspender a lógica implacável do conflito. Ao contrário de há mais de um século, não há espaço para cânticos entre trincheiras, apenas para comunicados oficiais que reiteram que, para Moscovo, a paz só chegará com a derrota política do adversário.