Paganismo Nórdico: A Antiga Fé Viking Que Renasce na Escandinávia
Nos países mais seculares do mundo, a espiritualidade nórdica antiga está a ressurgir. Conheça o fenómeno do paganismo que atrai milhares na Escandinávia.
Num bosque nos arredores de Estocolmo, ao cair da tarde, uma dezena de pessoas eleva cornos cheios de hidromel em direção ao céu, enquanto uma sacerdotisa invoca Thor. Esta cena, que poderia parecer retirada de um filme, é de facto um ritual moderno, sem as invenções hollywoodianas de peles e capacetes com chifres. Aliás, trata-se de um blót, uma cerimónia pagã que, contra todas as expectativas, regressou com força aos países nórdicos.
Em nações que lideram os índices de secularização a nível global, onde a afluência às igrejas cristãs é mínima e muitos jovens questionam a existência de Deus, milhares de pessoas estão agora a identificar-se com as religiões pré-cristãs do Norte. Não é uma moda passageira, mas sim um movimento sério, com religiões oficialmente registadas, sacerdotes, templos, rituais de passagem e cemitérios próprios, com comunidades em franca expansão.
O Regresso dos Deuses Nórdicos na Sociedade Moderna
Este renascimento não é um passatempo, mas uma fé antiga adaptada a tempos instáveis. Em vez de guerreiros vikings, encontramos mães de família, trabalhadores de escritório, jovens e reformados, todos a participar em rituais que promovem a comunidade e a conexão com a natureza. A Suécia, por exemplo, conta com organizações reconhecidas pelo Estado, como a Nordic Asa-Community (NAC) e a Forn Sed Sweden, que juntas reúnem cerca de 2.700 membros registados e uma rede que ultrapassa os 16.000 seguidores. Este ano, conseguiram aprovar o primeiro cemitério pagão em mais de mil anos, na localidade de Molkom, e estão a angariar fundos para erguer um templo em Gamla Uppsala, antiga capital religiosa dos vikings.
Na Dinamarca, a Forn Siðr, reconhecida desde 2003, tem aproximadamente 650 membros e gere um cemitério pagão em Odense. Na Noruega, grupos como Bifrost e Forn Sed Norge, abertamente antirracistas, publicam materiais sobre rituais, ecologia e tradição. Já na Finlândia, comunidades como a Karhun kansa, focada em religiões nativas finlandesas, foram reconhecidas em 2013, e a associação Lehto agrupa praticantes de wicca, xamanismo e paganismo nórdico em geral.
Islândia: O Epicentro do Renascimento Pagão
Contudo, é na Islândia que o fenómeno atinge o seu auge. A organização Ásatrúarfélagið, fundada em 1972 e reconhecida um ano depois, é hoje a segunda religião do país, com mais de 7.000 membros ativos numa população de 389.000 habitantes. Em Reiquiavique, está em construção o primeiro templo pagão em mil anos, um edifício circular de betão, madeira e luz natural, projetado para acolher cerimónias, bibliotecas e banquetes.
Os ritos centrais, os blót, são cerimónias sazonais em honra dos deuses e das forças da natureza. Estes rituais, geralmente celebrados ao ar livre, incluem recitação de poesia, brindes, música e uma refeição comunitária. Ao contrário dos sacrifícios animais da antiguidade, os blót modernos são simbólicos, com oferendas de hidromel, pão, fruta e queimas rituais. O perfil do pagão nórdico atual é, na verdade, de adultos entre 25 e 50 anos, com alto nível de escolaridade, emprego estável, interesse pela natureza, ecologia e cultura local, e valores progressistas. Não se trata de um retorno literal ao século IX, mas de uma reinterpretação híbrida, pós-moderna, que mistura textos antigos com arqueologia, ecologia, psicologia moderna e a inerente necessidade humana de ritual.
Uma Fé com Olhar Atento ao Futuro
É inevitável abordar a relação entre paganismo e extrema-direita. Apesar da instrumentalização da iconografia viking por grupos supremacistas no século XX, as associações nórdicas oficiais são explicitamente antirracistas, chegando a expulsar membros com ideologias xenófobas. Como um membro da Forn Sed Sweden afirmou categoricamente: "Se és nazi, não és pagão. És apenas nazi."
Este renascimento demonstra que, mesmo no mundo globalizado e tecnológico, a busca por raízes, ciclos e sentido de pertença em tempos caóticos leva muitos a encontrar significado em práticas ancestrais. Enquanto no nosso dia a dia proliferam os ecrãs e a inteligência artificial, nos bosques nórdicos ecoam sons antigos: um corno de hidromel, um verso da Edda, um nome sussurrado. Talvez os deuses nórdicos nunca se tenham ido embora, e agora, com uma nova roupagem – mais suave, mais ecológica e mais humana – eles voltam a caminhar entre nós.
