Netflix adquire Warner Bros. por €76,9 mil milhões: um terramoto na indústria
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Netflix adquire Warner Bros. por €76,9 mil milhões: um terramoto na indústria

A Netflix avança com a aquisição da Warner Bros. por uma quantia colossal. Esta megassfusão poderá redefinir o futuro do streaming e do cinema globalmente.

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A indústria do entretenimento prepara-se para uma das maiores transformações da sua história recente: a Netflix anunciou a sua intenção de adquirir os ativos restantes da Warner Bros. por uns impressionantes 82,7 mil milhões de dólares, o que equivale a cerca de 76,9 mil milhões de euros. Este acordo, que ocorre após a separação já anunciada da Warner Bros. e Discovery, promete redesenhar o panorama dos media globais, desde a exibição cinematográfica até à produção de conteúdos e, de facto, à forma como consumimos entretenimento em casa. Contudo, esta megafusão, apesar de potencialmente lucrativa para os acionistas, levanta sérias preocupações para a concorrência, os consumidores e os próprios criadores de conteúdo.

Uma Megafusão de Proporções Inéditas

Nos termos do acordo, a Netflix planeia adquirir todos os ativos remanescentes da Warner Bros., incluindo os seus estúdios de cinema e televisão, o serviço HBO Max e a própria HBO. Além disso, a Warner Bros. Games, que detém estúdios como a NetherRealm – responsável pela popular franquia Mortal Kombat –, também fará parte desta transação colossal. Esta união consolidaria um império de conteúdo vastíssimo, englobando algumas das propriedades intelectuais mais valiosas do mundo e reforçando significativamente a posição da Netflix no mercado.

Esta notícia surge num período de recuperação pós-pandemia e após as greves de guionistas e atores em Hollywood, que expuseram tensões sobre a valorização do trabalho criativo e o uso da inteligência artificial. A indústria tem-se debatido com dívidas e fusões questionáveis, como a da Warner Bros. Discovery, que resultaram em custos de subscrição mais elevados, demissões e cortes na produção. A resposta, ao que parece, tem sido a consolidação, mas a escala desta aquisição da Netflix poderá ser um ponto de viragem.

O Escrutínio dos Reguladores e o Futuro do Mercado

Uma transação desta magnitude não passará sem um intenso escrutínio regulatório. Várias vozes já se levantaram contra o negócio, com receios de que a Netflix e a Warner Bros. possam criar um gigante mediático com controlo sobre uma fatia considerável do mercado de streaming. Em contexto europeu, seria expectável que as autoridades de concorrência analisassem o impacto na diversidade de oferta e nas condições de mercado para os consumidores e outros players.

De facto, dados indicam que uma combinação Netflix-HBO Max representaria cerca de 33% do mercado de streaming nos EUA, um valor ilustrativo da enorme quota que a entidade combinada poderia alcançar. Embora o co-CEO da Netflix, Greg Peters, tenha afirmado que a empresa manterá os negócios atuais da Warner Bros., incluindo a HBO e os lançamentos cinematográficos, o futuro dos preços e dos pacotes de subscrição é incerto. É altamente provável que os preços aumentem, e poderemos assistir à criação de subscrições combinadas, à semelhança do modelo da Disney com o Disney+, Hulu e ESPN.

Impacto no Cinema e nos Criadores

Para as salas de cinema, esta fusão não augura um futuro promissor. Históricos de fusões anteriores, como a da Disney e Fox, mostraram uma diminuição dos lançamentos cinematográficos. A Netflix, com o seu modelo streaming-first, tem tradicionalmente visto as exibições em sala como algo secundário, apesar de o co-CEO Ted Sarandos ter afirmado que a empresa continuará a honrar os compromissos da Warner Bros. com os cinemas. No entanto, a sua visão de um modelo cinematográfico “desatualizado” não tranquiliza a indústria da exibição, que já se manifestou contra o acordo, temendo um “impacto negativo sem precedentes” globalmente.

Por outro lado, os criadores de conteúdo também veem o futuro com apreensão. Menos players no mercado significa menos oportunidades para pitchar projetos e um risco de homogeneização do conteúdo. Nomes como o argumentista de Doctor Strange, C. Robert Cargill, alertam para uma “destruição da diversidade e de novas vozes na indústria”, temendo que a aposta no “conteúdo” em massa sacrifique a criatividade e a inovação que caracterizam muitas das produções da HBO e da Warner Bros.

O Destino da Mídia Física

Um dos pontos que de facto passa despercebido nas discussões sobre a aquisição é o futuro da mídia física. A Netflix, outrora um serviço de aluguer de DVDs por correio, há muito que desvaloriza este formato. Embora a Warner Bros. ainda tenha um negócio de home video, é provável que, dada a diminuição da procura geral, esta seja uma das primeiras áreas a ser reavaliada ou até eliminada pela nova entidade. Ainda que existam lançamentos premium de nicho, o caminho parece ser o digital puro.

Esta aquisição da Netflix à Warner Bros. promete, portanto, ser um divisor de águas. Resta saber se os reguladores permitirão a sua concretização e, em caso afirmativo, qual será o verdadeiro custo para a diversidade, inovação e para o próprio público consumidor de entretenimento.