Na era digital, a distração pode ser a chave da criatividade
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Na era digital, a distração pode ser a chave da criatividade

Manoush Zomorodi, autora de 'Bored and Brilliant', defende que deixar a mente divagar é crucial na era digital. Descubra como a distração pode impulsionar a.

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Quem nunca foi acusado de 'estar no mundo da lua' ou 'com a cabeça nas nuvens'? Numa era de hiperconexão constante, onde cada minuto parece ter de ser preenchido com produtividade ou consumo de informação, divagar tornou-se, para muitos, um luxo que não nos podemos dar, ou um sinal de distração pouco saudável. No entanto, uma perspetiva diferente emerge de 'Bored and Brilliant', o aclamado trabalho de Manoush Zomorodi, que nos convida a repensar o valor de deixar a mente vaguear.

Zomorodi, jornalista e ex-apresentadora do popular podcast 'Note to Self' da WNYC – e agora à frente do 'TED Radio Hour' da NPR – argumenta de forma convincente que, de facto, a capacidade de 'desligar' e permitir que os nossos pensamentos divaguem é não só essencial para a nossa criatividade e bem-estar, mas também uma habilidade preciosa que corremos o risco de perder no turbilhão digital dos nossos dias.

O Poder da Mente Divagante

Para Zomorodi, a 'distração' não é sinónimo de falta de foco, mas sim um estado mental onde o cérebro processa informações de forma não linear, estabelecendo conexões inesperadas. É durante estes momentos que muitas das nossas melhores ideias surgem, que resolvemos problemas complexos sem sequer nos apercebermos, ou que consolidamos memórias. Em Portugal, onde a pressão para estar sempre 'online' e disponível é uma realidade transversal, a mensagem de Zomorodi ganha um eco especial. A ideia de que precisamos de aborrecimento para estimular a criatividade contraria a lógica da gratificação instantânea a que as aplicações e redes sociais nos habituaram.

O Custo da Hiperconexão Constante

A hiperconexão, alimentada pelos nossos smartphones e a constante notificação de e-mails, mensagens ou posts nas redes sociais, rouba-nos esses preciosos momentos de 'ócio produtivo'. Ao preencher cada lacuna, seja na fila do supermercado ou numa viagem de metro, com a rolagem incessante de feeds, estamos a privar o nosso cérebro do espaço necessário para a introspeção e a inovação. De facto, a capacidade de se aborrecer tornou-se quase uma anomalia numa sociedade que valoriza a constante estimulação.

Zomorodi aponta que esta dependência digital não só afeta a nossa capacidade de concentração a longo prazo, mas também pode ter implicações na nossa saúde mental, contribuindo para o stress e a ansiedade. A constante comparação social, a sensação de 'FOMO' (Fear of Missing Out) e a sobrecarga informativa são custos reais que pagamos por estarmos sempre ligados.

Estratégias para 'Desligar' (e Ligar o Cérebro)

Então, como podemos recuperar esta capacidade vital? Zomorodi oferece estratégias práticas no seu trabalho. Pequenas ações, como fazer uma pausa intencional do ecrã, dar um passeio sem um destino específico, ou simplesmente contemplar a paisagem sem distrações digitais, podem fazer uma enorme diferença. Em Portugal, onde temos a sorte de ter paisagens diversas e uma cultura que ainda valoriza o convívio presencial e o ritmo mais calmo em certos momentos, estas práticas são perfeitamente adaptáveis ao nosso quotidiano.

Não se trata de um desprezo pela tecnologia – aliás, a tecnologia é fundamental em muitas áreas das nossas vidas – mas sim de uma gestão consciente do tempo que lhe dedicamos. É sobre encontrar um equilíbrio que nos permita beneficiar das ferramentas digitais sem sacrificar o nosso bem-estar mental e a nossa capacidade inata de criar e inovar.

Em suma, 'Bored and Brilliant' serve como um lembrete pertinente: a mente divagante não é um problema a ser corrigido, mas sim um recurso a ser cultivado. Numa era definida pela velocidade e pela informação, aprender a 'desligar' para, de facto, 'ligar' o nosso potencial criativo e cognitivo, pode ser a chave para uma vida mais equilibrada e, paradoxalmente, mais produtiva. Talvez seja tempo de abraçarmos mais o tédio e a distração, permitindo que a nossa mente explore os seus próprios caminhos.