GDC: A IA Brilhava por todo o lado, exceto nos videojogos
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GDC: A IA Brilhava por todo o lado, exceto nos videojogos

Na Game Developers Conference, a inteligência artificial foi omnipresente em ferramentas e apresentações, mas encontrou forte resistência dos criadores para uso nos jogos. A maioria dos developers rejeita a IA, citando preocupações com a autenticidade humana, a qualidade da arte e os complexos desafios legais. Esta tendência sublinha um debate fundamental sobre o futuro da criação de videojogos e a manutenção do 'toque humano'.

7 min de leitura

Na mais recente Game Developers Conference (GDC), a inteligência artificial (IA) marcou uma presença avassaladora em quase todos os aspetos da feira, desde as ferramentas de desenvolvimento até às apresentações de fornecedores, com uma notável exceção: os próprios jogos. Apesar da promoção generalizada de soluções de IA generativa para a criação de NPCs (personagens não-jogáveis), mundos de jogo inteiros a partir de caixas de chat e assistentes de controlo de qualidade (QA) automatizados, os criadores de videojogos com quem a PRISMATEK falou na conferência manifestaram uma oposição quase universal à sua integração nos seus projetos. Este paradoxo sublinha uma crescente tensão entre a rápida ascensão das tecnologias de IA e o valor intrínseco que os developers atribuem à autoria e ao toque humano na criação de jogos.

A Presença Ubíqua da IA, Exceto Onde Mais Importa

No Festival GDC deste ano, a IA era um tema incontornável. Os fornecedores apresentavam ferramentas de IA generativa para uma vasta gama de aplicações, como a criação de NPCs impulsionados por IA e até jogos completos a partir de um simples comando de texto. No espaço de exposição, foi possível experimentar uma demonstração de um mundo de fantasia em pixel art gerado pelas ferramentas de IA da Tencent e observar um assistente de IA para QA a registar automaticamente problemas num jogo de tiros, durante uma apresentação da Razer. Além disso, a conferência contou com inúmeras palestras sobre IA, incluindo uma sessão lotada de investigadores da Google DeepMind sobre espaços jogáveis gerados por IA. No entanto, o ponto crucial onde a IA estava notavelmente ausente era precisamente nos jogos em si, com a maioria dos developers a rejeitar a ideia de a usar nos seus projetos.

Gabriel Paquette, developer de The Melty Way, resumiu um sentimento comum ao afirmar: "Sinto que a mente humana é tão bonita. Porquê não usá-la?" Esta tónica na criatividade humana ecoou em muitas das conversas, com a maioria dos developers, em grande parte independentes, a renegarem a IA, afirmando que nunca usariam a tecnologia, pois isso diminuiria o elemento humano do desenvolvimento. Esta aversão não é surpreendente, considerando que um recente inquérito da GDC revelou que 52% dos inquiridos acreditam que a "IA generativa está a ter um impacto negativo na indústria de jogos", um aumento significativo em relação aos 30% em 2025 e 18% em 2024. Alguns developers independentes já fazem questão de publicitar os seus jogos como "livres de IA", e a reação amplamente negativa ao DLSS 5 da Nvidia, que em exemplos públicos adicionou rostos "plastificados" gerados por IA a personagens de jogos reconhecíveis, dificilmente fará com que os developers mais pequenos se interessem pela tecnologia.

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A Resistência dos Criadores e os Desafios Legais

Embora a proposta geral da IA generativa no gaming sugira benefícios tanto para developers como para jogadores – com a IA a auxiliar em tarefas como depuração, QA e geração de ideias, e a personalizar jogos para os jogadores – a perspetiva de quem realmente cria os jogos é bastante diferente. Jack Buser, executivo da Google Cloud e veterano da indústria, descreve a IA generativa como a "maior transformação na indústria de jogos que já testemunhou". Contudo, para muitos, como Adam e Rebekah Saltsman, cofundadores do estúdio Finji (conhecido por títulos como Tunic e Chicory: A Colorful Tale), as suas obras são definidas pelas "impressões digitais de uma pessoa ou pessoas específicas", ou seja, uma qualidade artesanal e humana. Para os Saltsman, a utilização de IA generativa para os jogos da Finji é um "não" categórico, com Rebekah a acrescentar que a IA generativa "simplesmente parece lixo". Outros desenvolvedores partilham a visão de que os jogos feitos por IA não têm o mesmo aspeto ou sensibilidade dos jogos feitos por humanos, resultando numa experiência que "não conecta" com o público, parecendo "genérica" ou "barata", como refere Abby Howard da Black Tabby Games. Matthew Jackson, a trabalhar no jogo de comédia My Arms Are Longer Now, acrescenta uma questão prática: "A IA não tem piada nenhuma."

Existem também problemas legais complexos que dificultam a venda de jogos criados com IA generativa. Para além das preocupações sobre o impacto ambiental da IA ou os dados nos quais é treinada, os Saltsman afirmam que não existe um enquadramento legal claro para a venda de produtos gerados por IA – um problema exacerbado pelo facto de a arte gerada por IA não poder ser protegida por direitos de autor na maioria das jurisdições. A Finji não está sozinha na sua posição; a Panic, editora de Untitled Goose Game, não tem "qualquer interesse em produtos criados por IA generativa", e a BigMode exige que os developers confirmem que os seus jogos são "feitos por humanos" e não incluem qualquer uso de IA generativa. Mesmo a Hasbro, que está a desenvolver os seus próprios videojogos, não utiliza IA nas suas pipelines de desenvolvimento. Uma preocupação recorrente nas conversas na GDC é que a utilização de IA generativa remove a arte do processo de criação de videojogos. Tony Howard-Arias, da Black Tabby Games, enfatiza que "a única forma de melhorar nas coisas é através da intensa concentração de uma carreira de trabalho artesanal aplicado". A questão da "perda do ofício" levanta, também, a preocupação sobre "onde arranjaremos novos talentos no futuro", caso as ferramentas de IA substituam os humanos, reduzindo as oportunidades para novos developers entrarem na indústria. No fundo, para muitos criadores, conceber jogos à mão cria uma ligação humana mais profunda, permitindo contar histórias que ressoam com os jogadores a um nível pessoal.

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O Enquadramento Regulatório Europeu e o Impacto no Mercado

O debate em torno da IA na indústria de jogos é particularmente relevante no contexto europeu, dada a abordagem regulatória proativa da União Europeia. Com a iminente implementação do Regulamento de IA da UE (EU AI Act), que estabelece diretrizes rigorosas para sistemas de IA de alto risco, a questão da responsabilidade e da transparência no conteúdo gerado por IA ganha uma dimensão acrescida. A falta de um quadro legal para a venda de bens produzidos por IA e a impossibilidade de proteger por direitos de autor a arte gerada por IA, mencionadas pelos developers na GDC, ressoam fortemente com os princípios do EU AI Act, que visa proteger os direitos fundamentais e a inovação. Para os estúdios europeus, isto significa que a adoção de IA generativa não é apenas uma questão de preferência criativa ou de viabilidade técnica, mas também de conformidade legal, potencialmente impondo requisitos adicionais de divulgação e auditoria para jogos que utilizem tais ferramentas. A forte resistência dos developers independentes na Europa, que constituem uma parte significativa da indústria, poderá ser amplificada por estas preocupações regulatórias, favorecendo a manutenção de uma abordagem mais 'human-centric' no desenvolvimento de jogos no continente.

Implicações para o Mercado e Consumidores Portugueses

Para o mercado português, as tendências e preocupações observadas na GDC, e amplificadas pelo contexto regulatório europeu, terão um impacto direto. Os consumidores portugueses, tal como os seus pares europeus, serão os destinatários finais dos jogos que ou abraçam ou rejeitam a IA generativa. A prevalência de jogos "feitos à mão" ou "livres de IA" no mercado europeu poderá moldar as expectativas dos jogadores, que poderão valorizar a autenticidade e a originalidade de uma criação humana em detrimento de conteúdos percecionados como "genéricos" ou "sem alma". Para os jovens talentos e pequenos estúdios de desenvolvimento de jogos em Portugal, que muitas vezes operam no segmento independente, a discussão sobre a IA é crucial. A adesão a práticas que valorizam o "ofício" e a criatividade humana poderá ser uma estratégia diferenciadora e ética, alinhada com as preocupações expressas pelos developers da GDC. Em última análise, a forma como a indústria de jogos portuguesa e europeia navegará nesta encruzilhada tecnológica determinará não só a estética e a qualidade dos futuros títulos, mas também a sustentabilidade e a identidade criativa do setor a longo prazo.

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