China: Governo Intervém para Travar Guerra de Preços no Automóvel
Mobilidade

China: Governo Intervém para Travar Guerra de Preços no Automóvel

Enquanto os preços dos carros sobem na Europa, a China enfrenta uma guerra de preços. O governo intervém com novas regras para estabilizar o mercado automóvel.

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Enquanto os consumidores europeus se confrontam com preços crescentes no mercado automóvel, a China vive uma realidade oposta: uma guerra de preços desenfreada que levou o governo a intervir. As autoridades chinesas publicaram um conjunto de diretrizes para regular o setor, numa tentativa de travar uma espiral de descontos que tem afetado a rentabilidade e a sustentabilidade das empresas.

Esta medida surge após anos de concorrência feroz, onde mais de 200 modelos de veículos registaram quedas de preço significativas só em 2024, com alguns descontos a atingir valores superiores a 6.300 euros. Fabricantes de peso como a BYD e a Xpeng já manifestaram apoio às novas regras, na esperança de estabilizar um mercado agitado pela “involução” dos preços.

A Espiral Descendente dos Preços

O problema tem raízes profundas na intensa concorrência doméstica. No passado mês de maio, a situação agravou-se, com alguns fabricantes a oferecer descontos massivos que ultrapassaram os 50.000 yuan, o equivalente a cerca de 6.300 euros. Houve mesmo veículos a serem vendidos por apenas 30.000 yuan (aproximadamente 3.800 euros), um valor que, de facto, coloca em causa a viabilidade de qualquer negócio. Esta corrida desenfreada aos preços levou já alguns pequenos fabricantes a abandonar o mercado e deteriorou a rentabilidade geral da indústria.

Dados do Comité de Automóveis do Conselho da China para a Promoção do Comércio Internacional revelam que o preço médio de transação de marcas como a BYD caiu de 116.200 yuan em junho para 108.100 yuan em outubro, sublinhando a gravidade da situação. A debilidade da procura, especialmente no segmento de luxo e veículos a combustão, juntamente com um excesso de capacidade produtiva, agravaram o problema.

O Pacote de Medidas para a Estabilização

A Administração Estatal para a Regulação do Mercado (SAMR) publicou um rascunho de diretrizes que visa impor maior ordem no setor. O documento, atualmente em consulta pública, estabelece requisitos claros tanto para fabricantes como para concessionários. Os fabricantes deverão, por exemplo, fixar os seus preços com base nos custos de produção e nas condições de mercado, mas sempre respeitando a autonomia de preços dos distribuidores.

É expressamente proibida a venda abaixo do custo de produção com o intuito de eliminar a concorrência ou alcançar uma posição de monopólio. Acordos de fixação de preços entre fabricantes também serão banidos. Para os concessionários, as novas regras exigem transparência total, com preços completos e sem referências falsas ou descontos enganosos. Esta é uma tentativa clara do governo de inverter a percepção de “involução” no mercado.

Reação do Setor e Perspetivas Futuras

Os grandes intervenientes da indústria automóvel chinesa reagiram positivamente às novas diretrizes. A BYD, líder mundial em veículos elétricos, emitiu um comunicado oficial a comprometer-se com as regras e a otimizar os seus sistemas de gestão de preços. A Xpeng, a Nio e outros fabricantes fizeram declarações semelhantes, manifestando apoio não só às regras de preços, mas também a uma legislação complementar sobre financiamento que facilita a troca de veículos.

Após o período de consulta pública, que termina em dezembro, espera-se que as diretrizes sejam formalizadas e desempenhem um papel crucial na reestruturação do mercado. Os primeiros sinais de estabilização já são visíveis, com o número de modelos com cortes de preço a diminuir em novembro. Resta agora verificar se estas normativas serão eficazes para resolver os problemas de excesso de capacidade produtiva e a persistente fraqueza da procura, aliviando a pressão sobre um setor vital para a economia chinesa.

Em suma, a intervenção do governo chinês no mercado automóvel é um reflexo da preocupação com a sustentabilidade da indústria face a uma guerra de preços implacável. Enquanto na Europa se assiste a uma escalada de custos, a China tenta desesperadamente equilibrar a balança entre concorrência e rentabilidade, numa batalha que ditará o futuro de um dos maiores mercados automóveis do mundo.