Arquitetos da Economia da IA Analisam Desafios Atuais e Futuros
Especialistas da indústria da inteligência artificial reuniram-se para debater os principais constrangimentos que a IA enfrenta. Desde a escassez de chips à procura de energia, são vários os obstáculos que podem travar o seu avanço. Novas arquiteturas e implicações geopolíticas também estiveram em foco.
Os Desafios Estruturais da Economia da IA
No início desta semana, cinco figuras proeminentes que tocam em todas as camadas da cadeia de abastecimento da inteligência artificial (IA) reuniram-se na Milken Global Conference, em Beverly Hills. O debate, moderado pelo editor do evento, abordou temas cruciais que vão desde a escassez de chips à exploração de centros de dados orbitais, passando pela possibilidade de que a arquitetura fundamental que sustenta esta tecnologia esteja, em parte, equivocada. Entre os intervenientes estavam Christophe Fouquet, CEO da ASML — a empresa holandesa detentora do monopólio das máquinas de litografia ultravioleta extrema, indispensáveis para a produção de chips modernos; Francis deSouza, COO da Google Cloud, supervisionando um dos maiores investimentos em infraestruturas da história corporativa; Qasar Younis, cofundador e CEO da Applied Intuition, uma empresa de IA física avaliada em 15 mil milhões de dólares; Dimitry Shevelenko, CBO da Perplexity, uma empresa nativa de IA focada em pesquisa e agentes; e Eve Bodnia, uma física quântica que deixou a academia para desafiar a arquitetura fundacional que a maioria da indústria de IA assume como certa, através da sua startup, Logical Intelligence. O consenso emergiu claro: o crescimento exponencial da IA está a colidir com limites físicos substanciais.
Limites Físicos, Novas Arquiteturas e a Eficiência Energética
Christophe Fouquet foi um dos primeiros a sublinhar que os constrangimentos começam muito mais abaixo na pilha tecnológica. Descrevendo uma “enorme aceleração na fabricação de chips”, o CEO da ASML expressou a sua “forte crença” de que, apesar de todo o esforço, “nos próximos dois, três, talvez cinco anos, o mercado será limitado pela oferta”. Isto significa que os hyperscalers — Google, Microsoft, Amazon, Meta — não conseguirão adquirir todos os chips pelos quais estão a pagar. Francis deSouza da Google Cloud corroborou a gravidade da situação, referindo que as receitas da Google Cloud ultrapassaram os 20 mil milhões de dólares no último trimestre, com um crescimento de 63%, e que a sua carteira de pedidos – receitas já comprometidas, mas ainda não entregues – quase duplicou para 460 mil milhões de dólares. A “procura é real”, afirmou. Para Qasar Younis da Applied Intuition, a restrição principal provém da recolha de dados do mundo real para sistemas de autonomia em veículos e equipamentos de defesa, salientando que nenhuma simulação sintética pode preencher totalmente essa lacuna.
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A questão energética surge como o grande desafio subsequente. DeSouza confirmou que a Google está a explorar seriamente a possibilidade de centros de dados em órbita como resposta às limitações energéticas, apesar dos desafios complexos de dissipação de calor no vácuo. Argumentou que a estratégia da Google de co-engenharia de toda a sua pilha de IA – desde os chips TPU personalizados até aos modelos e agentes – traduz-se em ganhos significativos de flops por watt, tornando a execução do Gemini em TPUs "muito mais eficiente em termos energéticos". Christophe Fouquet reforçou este ponto, afirmando que a indústria, apesar de investir capital extraordinário por necessidade estratégica, tem de considerar que mais computação implica mais energia, e esta tem um custo. Paralelamente, Eve Bodnia, da Logical Intelligence, desafia o paradigma dos grandes modelos de linguagem (LLMs) com os seus modelos baseados em energia (EBMs). Com apenas 200 milhões de parâmetros, os EBMs da Logical Intelligence são milhares de vezes mais rápidos do que os LLMs e são concebidos para atualizar o seu conhecimento de forma contínua, sendo mais adequados para a apreensão de regras físicas em robótica e design de chips. Dimitry Shevelenko, da Perplexity, apresentou o Perplexity Computer como um “trabalhador digital” que os utilizadores dirigem, não apenas uma ferramenta. A ênfase na granularidade das permissões (leitura/escrita) é crucial para a segurança e o controlo dentro de sistemas corporativos, um ponto que Shevelenko considera essencial, particularmente para marcas que dependem fortemente da confiança do cliente.
O Papel Europeu e as Implicações Geopolíticas da IA
A Europa desempenha um papel central e muitas vezes invisível nos alicerces desta economia da IA, como exemplificado pela ASML, uma empresa holandesa que detém um monopólio crucial na produção de chips avançados. Contudo, os desafios levantados pelos especialistas – escassez de chips, custos energéticos e a necessidade de dados do mundo real – afetam igualmente o continente. As preocupações com a soberania nacional, sublinhadas por Qasar Younis em relação à IA física (veículos autónomos, drones de defesa), ressoam fortemente na União Europeia, que se tem posicionado como regulador global da IA através do seu Ato de IA. A capacidade de um país, ou de um bloco como a UE, controlar sistemas que operam dentro das suas fronteiras, e a proteção dos dados gerados por estes, são questões que moldarão as políticas europeias. A segurança e a resiliência da cadeia de abastecimento, particularmente a dependência de tecnologias de ponta, tornam-se imperativos estratégicos para a Europa.
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Consequências para o Mercado e a Sociedade Portuguesa
Para Portugal, as discussões em torno da Milken Global Conference têm implicações diretas, apesar de o país não ser um grande produtor de chips ou de sistemas de IA em larga escala. A escassez de semicondutores e o aumento dos custos energéticos terão um impacto na disponibilidade e nos preços dos serviços e infraestruturas de IA acessíveis às empresas e consumidores portugueses. A procura por soluções de IA mais eficientes, seja através de novas arquiteturas como os EBMs ou da otimização da pilha tecnológica, será uma prioridade para as startups e PMEs portuguesas. Adicionalmente, o debate sobre a segurança e o controlo granular dos “trabalhadores digitais” da IA, bem como as considerações geopolíticas da IA física, realçam a necessidade de Portugal se alinhar com a estratégia europeia para a governação e a regulamentação da IA, assegurando a proteção dos dados e a soberania tecnológica num contexto cada vez mais digitalizado.
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